quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Noite de Lua Cheia



Queridos,


Mais um ano se encerra e assim entramos naquele processo de reflexão do que foi positivo, do que precismos melhorar, o que precisa ser reforçado e o que precisa de fato ser ultrapassado. Neste último ano muitos entraram em contato com este blog, desta forma entrei em contato com novos irmãos e encontrei novos "caminhantes", pessoas maravilhosas que buscam trilhar o difícil caminho espiritual. Agradeço então a todos que contribuíram com o Meditar e que tornaram este espaço um lugar de profunda reflexão. Que 2010 venha cheio de novidades interessantes e que possamos continuar a construir esta imensa rede de benefício a todos os seres. Agradeço também a esta imensa rede de blogs, extremamente sérios, que buscam o contato de forma genuína e pura. Não poderia deixar de agradecer a generosidade de todos os mestres que permitem a publicação e divulgação de seus maravilhosos textos.


Em janeiro estarei viajando mas espero poder continuar em fevereiro esta nossa bela troca de experiências.


Boas festas!!!! Um 2010 cheio de saúde, amor e muita paz!!!!!


Aproveitem a virada contemplando a Lua Cheia.


Com carinho,


Marcio - Padma Jigme

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Que possamos celebrar este momento com muita sabedoria.
Um feliz natal para todos.

Amor e paz!!!!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A DISTRAÇÃO


Inúmeras pessoas crêem que a meditação deve necessariamente ser um estado desprovido de todos os pensamentos. Ora, quando elas meditam, pensamentos aparecem e elas concluem disso que são incapazes de meditar, que a meditação é um exercício completamente fora de seu alcance. Esse a priori é um erro: meditar não é apagar todo pensamento. Como abordar o problema dos pensamentos?É preciso, antes de tudo, evitar dois erros: 1 - O primeiro é não tomar consciência de que os pensamentos se produzem nem segui-los maquinalmente;2 - O segundo é procurar dete-los.A atitude justa será, ao contrário, estar consciente da produção dos pensamentos, mas sem segui-los nem procurar para-los, mas simplesmente não ocupar-se deles. Se não nos ocupamos dos pensamentos, os pensamentos não tem força. Enquanto não conhecemos a natureza de nossa mente, esta produz pensamentos, que tanto podem ser positivos como negativos, dotados de uma grande força sobre nós mesmos, pois eles são apreendidos como reais. Sem esta apreensão, os pensamentos não tem nenhuma força. Quando deixamos a mente relaxada, vem de início um momento em que ela permanece sem pensamentos. Esse estado estável é como um mar sem ondas. Nessa estabilidade, surge em seguida um pensamento. Este é como uma onda que se forma na superfície do mar. Na medida em que deixamos este pensamento sem nos ocuparmos dele, sem o "deter", ele esvanece-se por si mesmo na mente de onde emanou. É como a onda que se desfaz de novo no mar de onde surgiu. 0 mar e a onda, se não refletimos sobre isso, podem aparecer como duas realidades separadas. De fato, elas são indiferenciadas em essência, pois a essência da onda é a água, bem como a essência do mar também o é. Não podemos dizer que ambos sejam entidades diferentes. Ondas sobem à superfície do mar, mas nada podem fazer alem de fundir-se de novo no mar.No entanto, não podemos dizer que o mar estaria de início diminuído ou que estaria em seguida aumentado. Da mesma maneira, quando deixamos acontecer o movimento dos pensamentos sem nos ocuparmos deles, nossa mente não se encontra deteriorada quando os pensamentos se produzem, e ela não se encontra melhorada quando é desprovida de pensamentos. Enquanto não tivermos compreendido o que é a mente, somos um pouco como aquele que estando na praia pensasse que o mar deve absolutamente ser desprovido de ondas. Quando uma onda vem em sua direção, ele desejaria agarrá-la e joga-la para um lado, depois, agarrar a seguinte e joga-la do outro lado. E mesmo quando, independentemente de seus esforços, o mar se acalmasse por instantes, seria inevitável que ondas se formassem de novo ali. Aquele que esperasse estabelecer um mar definitivamente desprovido de ondas só poderia estar constantemente decepcionado. Querer, durante a meditação, eliminar os pensamentos, é colocar-se na mesma situação. Quando ondas surgem do mar, elas recaem no mar. Na realidade, o mar e as ondas não são diferentes. Se compreendemos isso, permanecemos sentados na praia, relaxados: não há então nem fadiga nem dificuldade. Do mesmo modo, quando observamos a essência de nossa própria mente, que existam pensamentos ou não, é sem importância; permanecemos simplesmente - relaxados.

do livro "Meditação - Conselhos aoPrincipiante" de Bokar Rimpoche

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Introdução a meditação

POR QUE MEDITAR?

Os homens são afligidos por sofrimentos, angustias e medos inumeráveis que são incapazes de evitar. A meditação tem por função eliminar esses sofrimentos e essas angustias. Pensamos, geralmente, que felicidades e sofrimentos surgem de circunstancias exteriores. Sempre atarefados, de uma ou de outra maneira, a reorganizar o mundo, tentamos afastar um pouco de sofrimento aqui, acrescentar um pouco de felicidade ali, sem jamais alcançar o resultado desejado. 0 ponto de vista budista, que também é o ponto de vista da meditação, considera, ao contrario, que felicidades e sofrimentos não dependem fundamentalmente das circunstancias exteriores, mas da própria mente. Uma atitude de mente positiva engendra a felicidade, uma atitude negativa produz o sofrimento. Como compreender esse engano que nos faz procurar fora aquilo que podemos encontrar dentro? Uma pessoa de rosto limpo e nítido ao se olhar em um espelho vê um rosto limpo e nítido. Aquele cujo rosto e sujo e maculado de lama vê no espelho um rosto sujo e maculado. Em verdade, o reflexo não tem existência; só o rosto existe. Esquecendo o rosto, tomamos seu reflexo por real. A natureza positiva ou negativa de nossa mente se reflete nas aparências exteriores que nossa própria imagem nos envia. A manifestação exterior é uma resposta a qualidade de nosso mundo interior. A felicidade que desejamos não virá da reestruturação do mundo que nos cerca, mas da reforma de nosso mundo interior. 0 indesejável sofrimento só cessará na medida em que não embotarmos nossa mente com todos os tipos de negatividades. Enquanto não reconhecermos que felicidades e sofrimentos tem sua origem em nossa própria mente, enquanto não soubermos distinguir o que, por nossa mente, é proveitoso ou nocivo, e que a deixamos a sua insalubridade ordinária, permanecemos impotentes para estabelecer um estado de felicidade autêntica, impotentes para evitar as contínuas ressurgências do sofrimento. Qualquer que seja nossa esperança, ela é sempre decepcionada. Se, ao descobrirmos no espelho a sujidade de nosso rosto, decidíssemos lavar o espelho, mesmo que esfregássemos fortemente durante anos com sabão e água em abundância, nada aconteceria, nem a mínima sujeira, nem a mínima mancha desapareceria do reflexo. Por falta de orientarmos nossos esforços para o objeto justo, eles permanecem perfeitamente vãos. Eis por que o budismo e a meditação tem por primordial compreender que felicidades e sofrimentos não dependem fundamentalmente do mundo exterior, mas de nossa própria mente. Na falta dessa compreensão, nunca nos voltaríamos para o interior e continuaríamos a investir nossa energia e nossas esperanças numa vã busca exterior. Uma vez adquirida essa compreensão, podemos lavar nosso rosto: o reflexo surgiria limpo no espelho. [...]

do livro "Meditação - Conselhos ao Principiante" de Bokar Rimpoche

Consciência

(...)Ser uma boa pessoa faz parte da estrutura do ego de que falamos. Chega um momento em que constatamos ser impossível sobreviver neste universo a menos que se desenvolva uma estratégia. Para alguns, a estratégia é ofensiva; para outros é ficar pequena e invisível. A sua estratégia é ser uma boa pessoa, ter uma boa aparência e agradar a todos. Contudo, a estratégia fundamental de todos será sempre: vou me proteger, de qualquer maneira e não quero saber a que preço. Com o tempo, esta estratégia se torna a decisão de base que norteia a nossa vida (o ego) porque não temos consciência dela. A nossa prática (atenção) é estar perfeitamente consciente disso, não racionalmente, mas em cada célula óssea de nosso corpo.
Por exemplo, o que você descreve—este encolher até chegar quase a desaparecer—você não estaria agindo assim se não fosse a manifestação de uma decisão. Houve um momento em que você decidiu que a única forma de sobrevivência seria de recorrer a esta estratégia. Você aprendeu (provavelmente sem ter consciência do que fazia) que sentindo-se ameaçada você encolheria. E o que você aprendeu na vida até agora é agir desta forma. Ir ao encontro de qualquer ameaça como?
O que fazemos na prática é aumentar a consciência da atividade incessante do ego. Quando meditamos com inteligência estamos fazendo isto, clarificando a estratégia do ego—conscientes das sensações no corpo, ouvindo nossos pensamentos desordenados—o que nos permite observar como esta estratégia domina nossas vidas. Só então é que podemos verdadeiramente avaliar que este tigre que nos tiraniza é vazio e que não precisamos estar a mercê de nada tão irreal. Nossa decisão pode não ter sido tola então, mas agora é tola e inadequada. Já não é necessária.

CHARLOTTE JOKO BECK

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Precioso Buda

Queridos,

Assistam esse bonito documentário (em 5 partes) sobre a vida do precioso Buda.
Segue a sinopse da BBC:

"Este documentário recria a vida de alguém que nunca quis ser venerado como um Deus, mas que mudou para sempre a história da humanidade em busca de paz e felicidade eterna. Quinhentos anos antes de Cristo um jovem príncipe deixou seu palácio e iniciou uma viagem pelo norte da Índia. Suas experiências definiram uma filosofia de vida que hoje tem mais de 400 milhões de praticantes. A filosofia Budista cresce dia após dia e mais pessoas, cada vez mais jovens, se interessam sobre os ensinamentos de Buda.No início do século XIX, um grupo de arqueólogos e exploradores ocidentais encontrou em Lumbini, um pequeno povoado do Nepal, o lugar de nascimento de Buda, o que os permitiu descobrir alguns segredos de sua vida. Uma pesquisa profunda, com testemunhos de especialistas e as últimas descobertas arqueológicas."

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pare de se perturbar




[...] A razão para um retiro solitário é se libertar de distúrbios. Mas o que é isso que te perturba? Você se perturba. Então, se você não perturbar a si mesmo, já está pronto.Em outras palavras, a ênfase não está no ambiente, mas no modo como você reage ao ambiente. Nossas mentes ficam agitadas e perturbadas pela nossa perseguição aos objetos dos cinco sentidos. Se podemos controlar isso, já temos realização em retiro solitário.Se o problema realmente estivesse nos cinco tipos de objetos sensoriais, eles também deveriam perturbar cadáveres. Então, viva em um lugar onde você não se perturbe, ou seja, onde você pare de perturbar a si mesmo.
Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
"Natural Liberation"

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Darmapada


Queridos,

"Em outubro, chegou aos leitores de todo o país a principal e mais difundida obra do cânone budista, o Darmapada (ou “Versículos do darma” ou ainda “A doutrina budista em versos”). Preservados primeiramente de forma oral, os aforismos éticos e morais ditos por Buda foram registrados por escrito no século I a.C., no Ceilão, atual Sri Lanka. Agora, os ensinamentos proferidos por Sidarta Gáutama (aproximadamente 563 - 483 a.C.), o Buda, chegam à Coleção L&PM POCKET traduzidos direto do páli por Fernando Cacciatore de Garcia, diplomata brasileiro aposentado e grande estudioso de Buda, do budismo e do páli."

Confiram aqui. uma entrevista do tradutor.

Amor e paz!!!

sábado, 5 de dezembro de 2009

O Zen e a pratica na vida pessoal e coletiva

Palestra da Monja Coen sensei - "Zen Budismo: prática na vida pessoal e coletiva", proferida durante o evento "Budismo no mundo contemporâneo", no CEBB Caminho do Meio, Viamão - RS.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Terceira Porta da Liberação


A Terceira Porta da Liberação é a ausência de objetivo. Não há nada a fazer, nada a realizar, nenhum programa a ser cumprido, nenhuma agenda. Esse é o ensinamento budista sobre os fins últimos do homem. A rosa tem que fazer alguma coisa? Não, o objetivo da rosa é apenas ser uma rosa. Seu objetivo é ser quem você é. Você não precisa sair correndo e se tornar outra pessoa. Você é maravilhoso do jeito que é. Esse ensinamento do Buda permite que a gente se divirta, contemple o céu azul e tudo o mais que é tão bom e refrescante no momento presente.

Não há nenhuma necessidade de inventar objetivos para depois correr atrás deles. Nós já temos tudo o que é necessário, já somos aquilo em que desejamos nos tornar. Somos todos Budas, por isso podemos dar a mão a um outro Buda e praticar a meditação andando. Esse é o ensinamento do Avatamsaka Sutra. Seja você mesmo, a vida é preciosa do jeito que é. Não há necessidade de correr, lutar, carregar fardos nem disputar coisas. Podemos apenas existir. Estar aqui, neste momento, neste lugar, já é uma forma profunda de meditação. A maioria das pessoas não acredita que caminhar sem pressa e despreocupadamente seja o bastante. As pessoas acham que lutar e competir são coisas normais e necessárias. Tente praticar a ausência de objetivos por cinco minutos apenas, e observe como será feliz durante esses cinco minutos.

O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, conseqüentemente não há necessidade de busca-Ia. Não precisamos de propósitos nem de metas. Nossa prática não visa obter uma alta posição. Quando praticamos a ausência de objetivo, entendemos que nada nos falta, que já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada principia a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir esse momento. As pessoas discutem como chegar ao Nirvana, mas na verdade já estamos lá. A ausência de objetivo e o Nirvana são uma coisa só.

Ao acordar hoje de manhã eu sorri.
Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor.
Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento do meu dia,
E olhar para todos os seres com o olhar da compaixão.

Essas vinte e quatro horas são uma dádiva preciosa, que só poderemos usufruir completamente quando tivermos aberto a Terceira Porta da Liberação, que é a ausência de objetivo. Se pensarmos que temos vinte e quatro horas para realizar alguma coisa, o dia de hoje passa a ser um meio para atingir um fim. O momento de cortar madeira ou carregar água é o momento que temos para sermos felizes. Não devemos esperar que essas tarefas estejam terminadas para só então sermos felizes. Ser feliz agora significa não ter metas agora. Se não fizermos isto, andaremos em círculo pelo resto da vida. No momento presente, temos tudo o que necessitamos para fazer desse momento o mais feliz de nossas vidas, mesmo se estivermos com dor de cabeça ou com um resfriado. Não temos que esperar o resfriado acabar para poder ser felizes. Resfriar-se é parte da vida.

Alguém me perguntou: "Você não está preocupado com a situação do mundo?" Eu respirei e respondi: "O mais importante é não permitir que a ansiedade em relação aos acontecimentos mundiais encha o seu coração. Se o coração for preenchido pela ansiedade, você ficará doente, e não poderá ajudar quando for necessário." Existem guerras - grandes e pequenas - em muitos lugares, e isso pode nos tornar ansiosos. A ansiedade é a doença de nosso tempo. Estamos sempre preocupados conosco, com a família, com os amigos, com o trabalho, e também com a situação do mundo. Se permitirmos que a preocupação inunde os nossos corações, mais cedo ou mais tarde ficaremos doentes.

É verdade que existe uma enorme quantidade de sofrimento por este mundo afora, mas o fato de saber disso não significa que estamos paralisados. Se praticarmos a respiração, a caminhada, a meditação e o trabalho com consciência, e fizermos o melhor que pudermos para ajudar os outros, teremos paz no coração. A preocupação não realiza nada. Mesmo se nos preocuparmos dez vezes mais, isso não melhorará em nada a situação do mundo. Na verdade, a ansiedade só faz piorar as coisas. Mesmo sabendo que nada é como gostaríamos que fosse, devemos ficar contentes mesmo assim, porque estamos dando o nosso melhor, e continuaremos a fazer isso. Se não soubermos respirar, sorrir e viver com atenção e profundidade cada momento de nossa vida, nunca poderemos ajudar ninguém. Sou feliz agora. Não me falta nada. Não espero nenhum tipo de felicidade adicional nem condições ideais para poder ser mais feliz ainda. A prática mais importante de todas é ausência de objetivo, em vez de ficar correndo atrás das coisas intensamente.

Aqueles dentre nós que tiveram a sorte de conhecer e praticar a atenção plena têm a responsabilidade de trazer paz e alegria para as suas vidas, mesmo que as condições do corpo, da mente ou do meio ambiente não sejam exatamente as que gostaríamos. Sem felicidade não poderemos ser um refúgio para os outros. Pergunte a si mesmo. O que estou esperando para ser feliz? Por que não fico feliz agora mesmo? Meu único desejo é ajudar vocês todos a entenderem isso. Como podemos inserir a prática da atenção plena na sociedade? Como podemos ajudar o maior número possível de pessoas a ser feliz e a ensinar a arte da atenção plena a outras pessoas? O número de pessoas capazes de gerar violência é muito grande, enquanto que um número muito reduzido sabe respirar e gerar felicidade. Todo novo dia representa mais uma oportunidade para ser feliz e ser um refúgio para os outros.

Não precisamos nos tornar nada além do que já somos. Não precisamos desempenhar nenhuma ação específica. Só precisamos ser felizes no momento presente, e dessa forma estaremos sendo úteis às pessoas que amamos e a toda a sociedade. A ausência de objetivo significa parar e entender que a felicidade está ao nosso alcance. Se for perguntado quanto tempo alguém precisa praticar para ser feliz, eu responderei que essa pessoa pode ser feliz imediatamente. A prática da ausência de objetivo é a prática da liberdade.

(Do livro “A Essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Segunda Porta da Liberação




A Segunda Porta da Liberação é a ausência de imagens. Neste contexto, "imagem" quer dizer uma aparência, ou um objeto de percepção. Quando vemos algo, é porque um sinal ou imagem aparece diante de nós, e é isso que chamamos de lakshana. Se a água, por exemplo, estiver em um recipiente quadrado, sua imagem é a "quadratura" do recipiente. Se estiver em um recipiente redondo, será a "redondeza". Quando abrimos o congelador e tiramos gelo, a imagem recebida é de que a água está sólida. Os químicos chamam a água de "H2O". A neve nas montanhas e o vapor que se eleva da chaleira também são H2O. Se H2O estiver no momento redonda ou quadrada, líquida, gasosa ou sólida, dependerá das circunstâncias. As imagens são instrumentos para nosso uso, mas não são a verdade absoluta. Elas podem nos enganar. O Sutra do Diamante diz: "Onde houver uma imagem, haverá uma ilusão”. As percepções costumam nos dizer tanto sobre quem percebe quanto sobre o objeto percebido. As aparências enganam.

A prática da Concentração na Ausência de Imagens é necessária para que possamos nos libertar. Sem enxergar além das imagens não atingiremos a realidade propriamente dita. Enquanto ficarmos presos às imagens - redondo, quadrado, sólido, líquido, gasoso - continuaremos a sofrer. Nada pode ser descrito em termos de uma imagem apenas. Mas sem imagens nós ficamos ansiosos. Nosso medo e nosso apego se devem a ficarmos presos a imagens. Até entendermos que todas as coisas têm uma natureza desprovida de imagens, continuaremos com medo e sofrendo. Para poder entrar em contato com a H2O, temos que esquecer de imagens tais como quadrado ou redondo, duro ou mole, pesado ou leve, em cima ou embaixo. A água, por si mesma, não é nenhuma dessas coisas. Só quando conseguirmos nos libertar das imagens estaremos aptos a penetrar no âmago da realidade. Enquanto não conseguirmos enxergar o oceano nos céus, continuaremos iludidos pelas imagens.

Um grande alívio advém quando rompemos as barreiras das imagens e atingimos o mundo que está além das imagens, o Nirvana. E onde devemos procurar este mundo sem imagens? Aqui mesmo, no meio do mundo das imagens. Se jogarmos a água fora, não haverá nenhuma forma de ter contato com a essência da água. Contatamos sua essência quando abrimos caminho através das imagens e chegamos à verdadeira natureza da interdependência dos seres. As três fases são a água, a não-água e a verdadeira água. A verdadeira água é a essência da água. O fundamento de sua existência não está sujeito ao nascimento nem à morte. Quando chegarmos a isso, não teremos mais medo de nada.

"Quando chegarmos à ausência das imagens dentro das imagens, encontraremos o Tathagata. Esta é uma frase do Sutra do Diamante. Tathagata significa "a natureza maravilhosa da realidade". Para ver a natureza maravilhosa da água é preciso olhar além das imagens (aparências) da água, e ver que ela é constituída de elementos não-água. Se você achar que a água é apenas água, que não pode ser o sol, a terra ou as flores, estará enganado. Terminará por entender que a água na verdade é o sol, a terra e as flores, e que apenas ao olhar para o sol, a terra e as flores você estará vendo a água. Isto é a "ausência de imagens das imagens". Um jardineiro orgânico que olha para uma casca de banana, folhas moitas ou galhos podres enxerga as flores, frutas e os legumes contidos neles. Ele saberia que as flores, as frutas e o lixo não têm existência independente. Ao aplicar esta compreensão a outras áreas de sua vida, o jardineiro pode atingir o despertar total. (...)

A ausência de imagens não é uma idéia apenas. Ao contemplar nossos filhos, vemos os elementos que os produziram. Eles são como são porque nossa cultura, economia, sociedade e nós mesmos somos do jeito que somos. Não podemos simplesmente culpar nossos filhos quando as coisas dão errado. Muitas causas e condições contribuíram. Quando soubermos transformar a nós mesmos e a sociedade, nossos filhos também se transformarão. Os jovens aprendem a escrever e ler, aprendem matemática, ciências, e outras matérias na escola para ajudá-los a ganhar a vida. Mas poucos currículos escolares ensinam os jovens a viver - como lidar com a raiva, como reconciliar os conflitos, como respirar, sorrir, como transformar as formações interiores. A educação necessita de uma revolução. Precisamos incentivar as escolas a ensinar a seus alunos a arte de viver em paz e harmonia. Não é fácil aprender a ler, escrever, ou resolver problemas matemáticos, mas as crianças conseguem. Aprender a respirar, sorrir e transformar a raiva também pode ser difícil, mas já vi muitos jovens conseguirem. Se ensinarmos às crianças valores adequados, quando elas tiverem apenas doze anos já saberão viver em harmonia com as outras pessoas.

Quando vamos além das imagens, entramos em um mundo onde não há medo nem culpa. Vemos a flor, a água e o nosso filho por um prisma que está além do tempo e do espaço. Sabemos que nossos ancestrais estão presentes dentro de nós, aqui e agora. Constatamos que Buda, Jesus, e todos os outros ancestrais espirituais não morreram. O Buda não pode ficar confinado há 2.600 anos. A flor não está limitada à sua breve manifestação. Tudo se manifesta por meio de imagem. Se ficarmos presos às imagens, sempre teremos medo de perder as manifestações específicas.

Quando um menino de oito anos que vivia em Plum Village morreu de repente, pedi a seu pai que mantivesse a plena consciência da presença do filho no ar que respirava e nas folhas de grama sob seus pés, e ele conseguiu fazer isso. Quando um conhecido professor de meditação vietnamita morreu, seu discípulo escreveu o seguinte poema:

Irmãos de Darma, não se apeguem às imagens.
As montanhas e os rios que nos cercam são nossos professores.

O Sutra do Diamante enumera quatro imagens - o eu, a pessoa, o ser vivo e o período de vida. Ficamos enredados na imagem eu, porque achamos que existem inúmeras coisas que não são eu. Mas quando contemplamos a questão com profundidade, vemos que não existe um eu separado e independente, o que nos liberta da imagem do eu. Entendemos então que para nos protegermos temos que proteger tudo o que não é nós mesmos.

Também ficamos enredados na imagem "pessoa". Separamos os seres humanos dos animais, árvores e pedras, e achamos que os não-humanos - peixes, vacas, plantas, terra, ar e mar - estão lá apenas para serem explorados por nós. As outras espécies também caçam para comer, mas não de uma forma exploratória como nós. Quando olhamos para a nossa espécie, vemos os elementos não-humanos contidos nela, e quando olhamos para os reinos animal, vegetal e mineral, vemos o elemento humano neles. Quando praticamos a Concentração na Ausência de Imagens, sabemos viver em harmonia com todas as espécies.

A terceira imagem é "ser vivo". Achamos que seres conscientes são diferentes de não-conscientes. Mas seres vivos ou sensíveis são feitos de espécies não-vivas ou não-sensíveis. Quando poluímos as espécies chamadas de não-vivas, como o ar ou os rios, estamos poluindo os seres vivos também. Se pensarmos na interdependência dos seres vivos e não-vivos imediatamente pararemos de agir deste modo.

A quarta imagem é "período de vida", que é o período de tempo entre o nascimento e a morte. Nós achamos que só estamos vivos por um período específico de tempo, que teve um começo e terá um fim. Mas ao contemplar profundamente, constatamos que nunca nascemos e nunca morreremos, e nosso medo se dissolve. Com atenção plena, concentração e as Três Qualidades do Darma, podemos abrir a Porta da Liberação que é a ausência de imagens e conquista o maior de todos os alívios.




(Do livro “A Essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As Três Portas da Liberação


As Três Qualidades do Darma são as chaves de que dispomos para abrir as Três Portas da Liberação - o vazio, a ausência de imagens e a ausência de objetivo. Todas as escolas de budismo aceitam o ensinamento das Três Portas da Liberação. Essas três portas às vezes são chamadas de Três Concentrações. Quando passamos por essas portas, adquirimos concentração e nos libertamos do medo, da confusão e da tristeza.

A Primeira Porta da Liberação é o vazio. O vazio sempre significa vazio de alguma coisa. O copo está vazio de água, e a tigela vazia de sopa. Nós estamos vazios de um eu independente e separado. Não podemos existir sozinhos. Só podemos existir em inter-relação com tudo o mais que existe no cosmos. A prática consiste em incentivar a compreensão do vazio durante todo o tempo. Aonde quer que vamos, entramos em contato com o vazio que existe em tudo. Olhamos para a mesa, o céu azul, o nosso amigo, a montanha, o rio, a raiva e a felicidade, entendendo que tudo isso está vazio de um eu independente e separado. Quando contemplamos essas coisas em profundidade, vemos a natureza interpenetrante e interdependente de tudo o que existe. O vazio não significa, em absoluto, não-existência. Significa Origem Interdependente, Impermanência e Não-eu.

Quando ouvimos falar de vazio, ficamos assustados. Mas depois de praticar por algum tempo, entendemos que as coisas realmente existem, só que de forma diferente do que pensávamos. O vazio é o Caminho do Meio entre a existência e a não-existência. A flor não se toma vazia quando murcha e morre, mas sempre foi vazia em sua essência. Ao olharmos em profundidade, vemos que a flor é composta de elementos não-flor - luz, espaço, nuvens, terra e consciência. Está vazia de um eu independente e separado. No Sutra do Diamante, aprendemos que um ser humano não é independente das outras espécies, e que para proteger os seres humanos é preciso proteger as espécies não-humanas. Se poluirmos o ar, a água, os vegetais e os minerais, estaremos destruindo nós mesmos. Temos que aprender a nos enxergar de outra maneira, vendo a nós mesmos naquelas coisas que sempre pensamos que estivessem fora de nós, e dissolvendo nossas falsas fronteiras.

No Vietnã, dizemos que se um cavalo estiver doente, todos os outros cavalos do estábulo recusam comida. Nossa felicidade e sofrimento são a felicidade e o sofrimento de todos. Quando agimos baseados no não-eu, nossa ações passam a estar em consonância com a realidade, e sabemos o que devemos fazer e não fazer. Quando temos consciência de que estamos todos ligados uns aos outros, adquirimos a Consciência do Vazio. A realidade está muito além de nossas idéias sobre ser e não ser. Dizer que uma flor existe não é exatamente correto, mas dizer que ela não existe também não é verdadeiro. O verdadeiro vazio é chamado de "ser maravilhoso", porque está além da existência e da não-existência.

Quando comemos, devemos praticar a Porta da Liberação chamada de vazio. "Eu sou este alimento. Este alimento sou eu." Um dia, no Canadá, quando eu almoçava com a Sangha, um estudante me olhou e disse: "Estou alimentando você." Ele estava praticando a concentração no vazio. Cada vez que olhamos nosso prato de comida, podemos contemplar a natureza impermanente da comida. Esta é uma prática profunda, porque tem o poder de nos ajudar a enxergar a "Origem Interdependente". Aquele que come e a comida ingerida são, por natureza, vazios. É por isso que a comunicação entre eles é perfeita. Quando praticamos a meditação andando de uma forma relaxada e pacífica, acontece a mesma coisa. Cada passo que damos não é dado apenas para nós, mas para o mundo. Quando olhamos para os outros, vemos sua felicidade e sofrimento ligados a nossa felicidade e sofrimento. "A paz começa em mim mesmo."

Todos aqueles que amamos um dia ficarão doentes e morrerão. Sem praticar a meditação no vazio, quando isto acontecer ficaremos arrasados. A Concentração no Vazio é uma forma de permanecer em contato com a vida como ela é, mas precisa ser praticada, e não apenas falada. Observamos nosso corpo e vemos as causas e condições que o fizeram existir - nossos pais, nosso país, o ar, e até mesmo as gerações futuras. Vamos além do tempo e do espaço, do eu e do meu, e experimentamos a verdadeira libertação. Se só estudarmos o vazio como uma filosofia, ele não será para nós uma Porta da Liberação. O vazio só se torna uma Porta da Liberação quando penetramos nele com profundidade, entendendo a natureza interdependente e o aparecimento conjunto de tudo o que existe.


(Do livro “A Essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)

sábado, 14 de novembro de 2009

Palavras de Sabedoria


Quando tudo muda, misteriosamente nossa natureza não muda!

Onde está ela? Como ela se manifesta?

Eis um bom momento para vê-la ativa como sempre criando as novas relações e as novas identidades. Vê-la com sua luminosidade produzindo os significados e costurando teias que antes não existiam e são apenas teias leves, luminosas, etéreas por mais densas que queiramos que pareçam.
A densidade é apenas aparente enquanto a responsividade é intensa. É um bom momento de usar a mente agitada, que não dorme direito, que produz a aparência de muitos diferentes cenários, pessoas e paisagens para contemplar a luminosidade intensa que se oferece como imagens presentes mesmo quando os olhos fecham.

Para os bons praticantes os bons momentos e os momentos de aflição não se distinguem pois são momentos sempre especiais.
Tenta que a luminosidade crie valores e não sofrimentos.

Tenta que a luminosidade transforme as relações e situações antigas em algo produtivo e benigno a todos.

Tenta não defender identidades e nem justificá-las mas manter sempre vivo a natureza que está além delas, impermanentes e flutuantes que são.

Tenta não culpar as identidades pois elas sempre produzem dificuldades, inevitavelmente, assim não há porque se surpreender ou ficar preso a culpas e avaliações.

Todas identidades produzem dificuldades.

Lama Padma Samten.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Vipassana nas prisões

Queridos amigos,

Este vídeo legendado é o primeiro, de 5 outros vídeos, que fazem parte de um importante documentário. Nele vocês terão a oportunidade de apreciar uma rica experiência transformadora nas prisões da India. Uma verdadeira prova do poder transformador da meditação.
Aos que puderem assistir, recomendo.

Amor e paz!!!!


domingo, 8 de novembro de 2009






"TAL COMO O ARQUEIRO APONTA A FLECHA OU

O CARPINTEIRO ESCULPE A MADEIRA, O SÁBIO

MOLDA A SUA VIDA"



Dhammapada

domingo, 1 de novembro de 2009

UM LAMA QUE FALA A LÍNGUA DA GENTE


REVISTA MUITO - GRUPO A TARDE

Publicada por Tatiana Mendonça, em 31 out 09.


Padma Samten, primeiro lama brasileiro, ordenado há 12 anos por seu mestre, Chagdud Tulku Rinpoche, pertence à linhagem Ningmapa e à família Padma, que dentro do budismo está vinculada a um dos mais nobres valores: a compaixão. Este é um dos principais ensinamentos de Tenzin Gyatso, Sua Santidade o 14º Dalai Lama. É o tema de quase todos os seus livros e do discurso em Oslo, ao ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 1989. É o que representa ao vestir a thuba vermelho ruby, cor que no budismo simboliza a compaixão.


O Lama Padma Samten, veste a mesma cor. “Sua Santidade o Dalai Lama é um dos meus mestres. Eu olho para ele e vou me movendo não só de modo inspirado por ele, mas também tentando repercutir o que ele faz, portanto, ajudar para que aquilo cresça ainda mais. Acho que ele está tendo essa clareza, para saber o que é necessário fazer para salvar nossa cultura, salvar o planeta, reduzir o sofrimento dos seres”, diz o lama brasileiro, se detendo em explicar que o Budismo está baseado em três orientações: “Não crie sofrimento para os seres, dê benefício para os seres e dirija sua própria mente”.


Nascido Alfredo Aveline há 60 anos, em Porto Alegre, mestre em física quântica e ex-professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Padma Samten vem se tornando conhecido no País pela coerência de seu discurso e pela atuação vigorosa à frente do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB). Com sede em Viamão (RS), o centro se faz representar em 30 cidades no Brasil, Uruguai e Canadá, por atividades muitas vezes dirigidas pelo próprio lama, que cumpre uma agenda cheia, ano após ano.


O trabalho vem dando frutos. Há poucos meses recebeu um convite da Rede Globo e Canal Futura para participar do programa Sagrado, que reúne líderes de diferentes correntes religiosas. O programa, que no canal aberto vai ao ar diariamente às 6h05, e aos domingos às 6h50, sinaliza para a popularidade do budismo no Brasil. “Você acha?”, pergunta animado.


Para o lama, o segredo do sucesso é simples: a adequação dos ensinamentos aos temas cotidianos. Em suas palestras ele fala que cada um deveria analisar suas próprias ações, perguntando a si mesmo: “O que posso fazer para não ferir as outras pessoas? O que posso fazer de bom para as outras pessoas?”. Simples assim.


Esta é a fórmula miraculosa também de Sua Santidade, o Dalai Lama, um comunicador nato que faz esta conexão entre os ensinamentos do Buda e o cotidiano de gente comum, que nem tem religião ou tem pouco acesso ao conhecimento. Ele vem fazendo isso através de seus livros, no Brasil publicados por várias editoras. Para Padma Samten, o Dalai Lama vem contribuindo para popularização do budismo no mundo.“Sua Santidade o Dalai Lama é o Prêmio Nobel da Paz. Ele exeuta muito bem a sua função. Está construindo uma cultura de paz. Ele está criando pontes entre as culturas, linguagens que nos permitem aproveitar o melhor de cada cultura – e não só da tradição budista, das várias tradições religiosas. Ele tem essa postura maravilhosa”.Para Padma Samten, o budismo tem respostas para as questões cruciais da humanidade. Ele mesmo encontrou, na senda do Buda, a ressonância para suas inquietações como ser humano, como físico e ativista ambiental, que no passado havia lutado contra a instalação de energia nuclear no Brasil. “No budismo é assim: nós trabahamos para que as nossas ações sejam as mais perfeitas agora, de tal modo que repercutam de forma positiva e de forma ampla”, esclarece. Para ele, esta visão explica por si mesma o poder da compaixão.


Fonte: REVISTA MUITO - Revista Semal do Grupo A Tarde - Salvador/Ba

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Canal do Lama Samten no youtube

Queridos,

Agora o Lama Samten tem um canal no youtube com todos os seus vídeos que circulam pela internet. Você poderá encontrá-los de forma organizada. Que todos possam se beneficiar com estes ricos ensinamentos.

O endereço é: http://www.youtube.com/lamapadmasamten

Carinho,

Padma Jigme

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Palavras do Meu Professor Perfeito


Quando você não tiver obsessões,

quando você não tiver pendências,

quando você não tiver inibições,

quando você não estiver com medo,você vai infringir algumas regras.


Quando você não tiver medo,você não vai se preocupar em satisfazer as expectativas de ninguém.

Que outra iluminação você quer?É isso!


(Dzongsar Khyentse Rinpoche - extraído do documentário "Palavras do Meu Professor Perfeito")

sábado, 24 de outubro de 2009

TRAVESSIA



"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."


Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eu e outros

Como você deseja ser feliz, então você deve desejar que os outros sejam felizes também. Como você deseja estar livre do sofrimento, então você deve desejar que todos os seres possam também ser livres do sofrimento. Você deve pensar, "Possam todos os seres sencientes encontrar felicidade e a causa da felicidade. Possam ser livres do sofrimento e da causa do sofrimento. Possam sempre ter felicidade perfeita, livre do sofrimento. Possam viver em equanimidade, sem apego ou aversão, mas sim com amor diante de todos, sem qualquer discriminação."
Sentir amor transbordante e compaixão quase insuportável por todos os seres sencientes é o melhor modo de realizar os desejos de todos os buddhas e bodhisattvas. Mesmo se no momento você não puder efetivamente ajudar ninguém de forma externa, medite constantemente sobre o amor e a compaixão durante meses e anos, até que a compaixão esteja inseparavelmente entrelaçada no próprio tecido de sua mente.
Conforme você tenta praticar e progredir no caminho, é essencial lembrar que seus esforços são para o benefício dos outros. Seja humilde e lembre que todos os seus esforços são como uma brincadeira de criança se comparadas à vasta e infinita atividade dos bodhisattvas. Assim como pais dando provisões aos filhos que amam tanto, nunca pense que você fez muito para os outros, ou que já basta. Mesmo se finalmente planejar estabelecer todas as criaturas vivas no estado búddhico perfeito, simplesmente pense que todos os seus desejos foram realizados. Nunca deve haver nem mesmo um rastro de esperança por qualquer benefício para si mesmo em retorno.
A essência da prática do bodhisattva é ir além do autoapego e se dedicar a servir os outros. A atividade do bodhisattva depende da mente, não de como suas ações possam parecer externamente. A verdadeira generosidade é a ausência de apego, a disciplina última é a ausência de desejo e a paciência autêntica é a ausência de raiva. Os bodhisattvas são capazes de dar seu reino, seu corpo, suas posses mais caras, porque superaram completamente qualquer tipo de pobreza interior e estão incondicionadamente prontos para preencher as necessidades dos outros.

Dilgo Khyentse Tashi Paljor

domingo, 11 de outubro de 2009

O Caminho de contemplação e meditação

Há várias maneiras de penetrar no Darma. Este processo que descrevemos agora é o que começa com a própria meditação. Ele pertence ao Mahayana, é um método que combina estudo, instrução e meditação, está baseado nos sutras. Não há nenhuma prática de visualização, recitação de mantras, etc. - pelo contrário, é um processo analítico que utiliza a meditação como instrumento. Utilizamos de ponta a ponta todos os processos cognitivos - nenhuma prática ligada a qualquer yidam ou preces, sadhanas, enfim, nenhum elemento do Vajrayana. Não utilizamos nenhum elemento construído, é um processo que busca diretamente lucidez sem nenhum elemento intermediário que não a cognição e serenidade.
No Vajrayana criamos para depois dissolver, aqui não há visualização de qualquer yidam, ou terra pura, apenas o nobre e sereno sentar. Através do efeito combinado da meditação silenciosa e do processo analítico, removemos todos os elementos até reconhecermos o aspecto incessante da natureza não-construída.
É um processo de purificação gradual: pela lucidez removemos progressivamente nossa fixação ao que foi construído. Em nenhum momento é necessário ter fé ou qualquer outra crença. Não é um processo intelectual, no qual geramos uma teoria. Também não privilegiamos nenhum estado mental especial, seja ele instrumento do caminho ou não, e progressivamente ultrapassamos os diversos estados mentais, produtos de nosso próprio carma eliminando a fixação. É o caminho de dissolução das fixações ao que é virtual.
Não consideramos nenhum elemento puro ou impuro, esta análise não pertence ao processo, mas reconhecemos incessantemente liberdades que não víamos antes. A palavra essencial é liberdade. Olhamos os processos mentais e emocionais não no sentido de localizar o que é bom ou ruim, mas no sentido de eliminarmos as marcas que produzem limitação em nossa liberdade. Quando removemos os obstáculos a visão se amplia, é apenas isto. Não é que existam elementos bons e ruins de fato. A visão Hinayana funciona de outro modo, o bom e o ruim é que legitimam uma visão de mundo. Porém, na visão Mahayana não temos panoramas que possam fixar visões finais e elementos positivos e negativos. A visão que temos do mundo está determinada por fatores sutis e estes fatores é que de fato nos aprisionam. Focamos, então, diretamente o que aprisiona, não os elementos bons e ruins criados pela visão condicionada operando desde estes fatores sutis.
Quando olhamos um filme, há coisas boas e ruins, mocinhos e bandidos, e nos aliamos automaticamente aos elementos que nos são simpáticos. De dentro do contexto do filme dizemos: "é mais adequado me conectar aos personagens positivos", não quero ligar-me aos assassinos, ladrões, estupradores, etc. Como iríamos nos ligar a eles? Assim é a visão Hinayana, operando segundo este enfoque, a mente raciocina segundo o roteiro do filme, aceita a estória e tenta seguir os valores positivos. Na visão Mahayana percebemos que há uma tela e uma luz que é projetada, então podemos nos livrar do próprio contexto proposto pelo roteiro do filme, reconhecemos que há um roteiro e como a experiência de realidade é criada e passa a dominar nossas emoções e dirigir nossa mente. Vemos que nossa identidade está claramente além daqueles personagens.
Na nossa vida cotidiana é o mesmo. As experiências também obedecem fatores sutis que não reconhecemos. Devido a isto, por vidas infindáveis operamos dentro daqueles padrões submetidos a experiências específicas de mundos "virtuais" particulares. A liberação não é estar num lugar seguro dentro do filme, um lugar limpo e bom, mas ver que o processo do filme é construído, é virtual, não é sólido, e, especialmente, que carrega em si liberdades reais, ainda que ocultas e insuspeitadas aos que se fixam na estória. As liberdades são o foco.
Mais adiante desenvolvemos a capacidade de penetrar livremente no contexto do "filme incessante da vida" para ajudar os seres a reconhecer liberdades reais, ocultas pela limitação de sua experiência convencional.
Essencialmente o que fazemos é atravessar esses diferentes panoramas sem ficar cegos pelas visões que surgem. Nosso objetivo é encontrar a estabilidade e a natureza não-construída que está além das aparências. Podemos brincar com isso em uma metáfora: por maiores que sejam os incêndios e explosões nos filmes, a tela nunca queima. A tela é capaz de sustentar as maiores monstruosidades e permanecer incólume, é impossível atingi-la. Assim é nossa própria natureza básica. Conectados ao filme, temos toda a experiência de transitoriedade e nos sentimos inseguros.
No avanço deste processo de retirada de solidez das aparências internas e externas pela prática de meditação, num determinado ponto o próprio personagem que o vive acaba desaparecendo. Não há como isso não acontecer, o personagem é um processo construído e a experiência de liberdade frente a ele acaba aparecendo. Num certo ponto cessa a experiência de alguém que galga etapas ou que passa por essas experiências.
A palavra "mundo" é apenas mais uma manifestação dessa separatividade. Há um ponto onde todas as perguntas sobre deus, iluminação, espaço, tempo, somem. Quanto mais avançamos nos aspectos sutis desse processo de dissolução, menos as teorias, compreensões e cognições fazem sentido. Essas palavras estão dentro da busca de uma compreensão de "como surgiu o mundo", mas, observe, essa pergunta traz dentro de si mesma a noção de separação. É a pergunta de alguém que observa algo separado de si.
Com o progresso da prática esses elementos eventualmente desaparecem. Na linguagem dos mestres: é como uma névoa que se dissipa, ninguém sabe para onde foi; é como um eco, não há origem para aquele som, mas ele surge. Quando procuramos a origem, não há alguém que tenha produzido o som. O efeito existe, mas não há uma identidade que o produza.
A experiência das vidas anteriores, os carmas acumulados, as experiências de mundo, isso tudo é apenas uma faísca. Surgem e desaparecem. Todas as complicações também são assim. Num momento surge samsara inteiro que dura por éons, mas isso nada mais é que uma faísca atmosférica na eternidade. É como um sonho. Parece denso, pesado, mas quando a pessoa acorda, não tem nenhuma importância. Ali dentro, aquilo é vital, muito importante. É como açúcar na água, não sabemos para onde foi. É como uma frágil gota de orvalho. Também é um halo ao redor do sol - surge não se sabe de onde, e desaparece não se sabe como. Tem uma aparência, mas não tem solidez. É como um rosto visto em uma nuvem. Está lá, podemos achar auspicioso, podemos achar bonito, podemos achar parecido com o pai, com o avô. Podemos acreditar que é uma mensagem, mas é apenas um rosto numa nuvem. Também como um arco-íris - surge magicamente e se dissolve magicamente.
Quando cruzamos por esse ponto, cessa a separatividade e percebemos todas as aparências como experiências de aparências. Vemos que toda a densidade anterior existiu inseparável de nossa ingenuidade. Não é boa nem má, é ingenuidade. Quando esse ponto é cruzado, então todos os elementos se transformam. A impermanência, por exemplo, deixa de ser um infortúnio. Passa a ser evidência da liberdade. Se as coisas fossem permanentes, não haveria mudança, não haveria liberdade. A evidência da não-solidez de todas as coisas é a própria evidência de liberdades ocultas aos olhos ingênuos. Essa é a descrição do caminho Mahayana que utiliza a meditação como processo principal.

Lama Samten

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Veneno no copo d´agua


O texto abaixo foi escrito com base em anotações que fiz durante um retiro com Geshe Lhakdor em São Paulo, nos dias 13 e 14/9. O que está em negrito são ensinamentos dados com muita ênfase pelo mestre, repetidas vezes.
O retiro foi maravilhoso! Com muita clareza, Geshe Lhakdor (tradutor e assistente de S. S. o Dalai Lama desde 1989) ofereceu ensinamentos muito profundos, de uma forma simples e intensa.

Imaginem que um bom amigo de vocês avisa que num copo d’água há veneno. Ainda que vocês estivessem com muita sede, vocês tomariam do líquido?
Em sã consciência, certamente não, afinal, venenos nos causam mal, podendo até matar, dependendo da quantidade.
Eis que no Budismo fala-se dos venenos da mente: inveja, raiva, apego, orgulho e ignorância. Eles recebem o nome de venenos justamente porque prejudicam nossa saúde e podem matar ou levar a matar, dependendo da dose.
Isso pode suscitar o seguinte pensamento em nós: é, realmente, essas emoções são de fato prejudiciais, mas de certa forma fazem parte da nossa vida, afinal somos seres humanos, temos nossas emoções, nossos altos e baixos.
Pois é. Essas emoções negativas ou venenos, de fato, estão bastante presentes e são muito comuns em nosso dia-a-dia. Por isso, temos a tendência de pensar “Isso faz parte de nós, o ser humano é assim”. Nem passa pela nossa cabeça que podemos estar agindo assim por puro hábito! Porque nesta vida (e provavelmente em outras) agimos assim por muitas vezes, então quando alguém levanta a voz conosco, nós levantamos a voz também, sem pensar. Isso é automático.
Imagine se o contrário fosse verdadeiro, ou seja, se isso não fosse automático. Você certamente nunca ouviu alguém dizer: “Olhe que coisa desagradável, você levantou a voz comigo, vou ficar com raiva agora! Um, dois, três e já! Estou com raiva!”.
Nós nem percebemos e estamos contaminados pelos venenos. Então, não há inimigos externos para os nossos problemas pessoais, nem para os problemas do âmbito da sociedade. O inimigo verdadeiro são as emoções negativas. Investigue cuidadosamente esse inimigo e perceba se ele faz mal ou não.
Não basta perceber que faz mal, afinal isso é bem fácil. Gere uma convicção profunda sobre isso.
Tendo em vista os males provocados pela emoções negativas e nossa tendência a utilizá-las, devemos alimentar a nossa mente com comida positiva. E o alimento deve ser dado com regularidade. Ou algum dia você pensou em ficar sem nenhuma refeição? Assim como o corpo físico precisa de comida diariamente, nossa mente também precisa. Por isso, tenha uma prática espiritual regular e sistemática e pratique meditação.
Uma mente bem alimentada é uma mente feliz, estável. Aconteça o que acontecer, não devemos deixar nossa mente ficar infeliz, pois a infelicidade é o alimento para a raiva.
A forma como pensamos e vemos as coisas é a fonte de nossa felicidade. Alimentar a mente com “comida positiva” significa irrigar as sementes de amor e compaixão. Portanto, mais uma vez, aconteça o que acontecer, não deixe sua mente ficar infeliz, por maior que possa parecer seu problema, pense nas várias vantagens e coisas boas da sua vida e foque sua mente nisso.
Retirado do Site:Bodisatva e escrito por Estela, aluna do querido Lama Santem. Para visualizar o site entre no seguinte link:
Com carinho,
Marcio

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Venerável Lama Chodak Nubpa

Neste maravilhoso vídeo, podemos ouvir as puras palavras de sabedoria deste grande mestre. Que assim possa ser útil,

Tashi Delek

sábado, 12 de setembro de 2009

Impermanência

Como postado no blog Sangha Marga: Impermanência.

Inteligente vídeo, espero que gostem.

Tashi Delek

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nada de especial

«A verdadeira prática (...) é muito mais voltada para enxergarmos como nos ferimos e magoamos os outros com pensamentos e atos iludidos. É enxergarmos de que maneira magoamos os outros, talvez por estarmos simplesmente tão perdidos em nossos próprios pensamentos que nem sequer conseguimos vê-los. Não acho que de fato causemos danos aos outros; é só que não vemos muito bem o que estamos fazendo. Posso saber como está indo a prática de uma pessoa vendo se seu interesse pelos outros está aumentando, interesse que vai além do que meramente EU quero, do que está ME ferindo, se como a vida é terrível, e assim por diante. Esse é o sinal de uma prática que está avançando. A prática sempre é uma batalha entre aquilo que queremos e aquilo que a vida quer.»

Joko Beck
(Nada de especial: vivendo zen, pág. 71).

sábado, 29 de agosto de 2009

Projeto Thangka

Vídeo sobre a pintura do Templo Caminho do Meio em Viamão - RS.

Que esta obra, realizada pelos integrantes da sangha do nosso querido Lama Samten, possa trazer inumeros benefícios a todos os seres.

Tashi Delek

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Que assim seja!

Que possamos alcançar esta verdade em corpo, fala e mente!


domingo, 16 de agosto de 2009

Conversando com Chagdud Rinpoche


"Seria ingênuo supor que praticantes novos conseguirão imediatamente eliminar todas as suas deficiências e desenvolver todas as qualidades positivas da prática. Porém, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que estágio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, então o amor, compaixão e sabedoria crescerão. Se as pessoas praticam, conseguem melhorar. Aqui não há diferença alguma entre orientais e ocidentais."

O senhor sempre ensina que a diferença entre o praticante e o não-praticante está em que este último percebe o mundo dos fenômenos com se estivesse olhando por uma janela, ao passo que o praticante o faz como se estivesse olhando num espelho.


Se queremos ajudar os outros a eliminar seus defeitos e desenvolver suas qualidades positivas, precisamos nos assegurar de que, primeiro, nós mesmos estejamos livres de defeitos e dotados de qualidades positivas. Mesmo que não estejamos totalmente isentos de defeitos, mesmo que não tenhamos revelado por inteiro todas as nossas qualidades positivas, devemos, pelo menos, ter purificado a nossa mente o suficiente para ajudar os outros, em vez de simplesmente criticá-la.Por isso é tão importante examinarmos a nossa própria mente. Quando temos um pensamento negativo, ou mesmo um pensamento neutro, — um que não seja particularmente não-virtuoso —, precisamos tentar transformá-lo em virtuoso. Quanto mais redirecionamos a mente, mais sua expressão externa em palavras e ações se torna virtuosa. A raiz de todos os fenômenos do samsara e nirvana está na mente. Os estados mentais virtuosos e não-virtuosos são responsáveis pelo carma que leva ao sofrimento ou à felicidade.Se repetidamente examinarmos nossos pensamentos, palavras e ações, e domesticamos a nossa mente, nossas deficiências começarão a diminuir e nossas qualidades positivas a crescer. Quanto mais se reduzirem nossos defeitos, mais irão se beneficiar as pessoas a nossa volta. Quanto mais forem incrementadas as nossas qualidades positivas, maior será nossa capacidade de ajudar os outros a cultivarem eles próprios essas qualidades.


Dentre as Três Jóias — O Buda, o Darma e a Sanga — as qualidades preciosas da Sanga são, as vezes, as mais difíceis de enxergarmos. Como é que podemos fazer nascer a visão pura e apreciarmos as qualidades positivas dos membros da Sanga?


Se considerarmos o número infinito de seres nos seis reinos do samsara, em termos proporcionais, poderíamos dizer que o número de seres nos reinos dos infernos é como o número de partículas de pó de um país imenso. O número de pretas, ou fantasmas famintos, é equivalente aos grãos de areia do rio Ganges, e o número de animais, ao número de grãos em uma grande tina de malte, usada para fermentar cerveja. Os semi-deuses são iguais ao número de flocos de neve em uma nevasca ou os pingos d’água numa tempestade. O número de deuses e humanos é como o número de grãos de areia que cabem sobre uma unha de um dedo.Portanto, antes de mais nada, a existência humana é muito rara, pois os seres humanos são, de longe, menos numerosos do que os outros seres. Além disso, embora muitos países sejam povoados por centenas de milhões de seres humanos, quantos destes estão ativamente buscando um caminho de virtudes e benefício ao próximo, por meio de seus pensamentos, palavras e ações? Quantos estão tentando evitar ferir os outros, evitar agir por formas não-virtuosas? O número de tais pessoas pode ser comparado ao número de estrelas que podemos ver durante o dia — de fato, muito poucas.A palavra em tibetano que corresponde ao termo sanga é "gedun" , que quer dizer "aquele que anseia pela virtude" , ou que é motivado por ela. Se uma pessoa possui essa qualidade de procurar a virtude, muito embora não esteja isenta de defeitos, sua motivação e compromisso pessoal a tornam muito especial.Os membros da Sanga mahaiana tomam votos não só de liberar a si mesmos da existência cíclica, como de liberar também os outros. Como podemos deixar de ver nesse compromisso a melhor de todas as qualidades? Não deveríamos ignorar isso e nos voltarmos para deficiências pessoais que são mais temporárias. Aqueles com quem nos associamos na Sanga, são nossos companheiros até que alcancemos a iluminação. Quando os enxergamos com respeito e apreciação, estamos beneficiando a nós mesmos porque isso faz crescer o nosso mérito; purifica nossos hábitos negativos e os efeitos do carma negativo. Existe, então, uma relação direta entre nossa atitude de respeito pela Sanga e o benefício que aferimos como praticantes individuais.


Como o praticante que inicia pode desenvolver entusiasmo e constância?


Para desenvolvermos diligência, precisamos pensar, vez após vez, sobre a oportunidade preciosa que a vida humana oferece — recordarmo-nos da liberdade e oportunidade que temos de buscar o desenvolvimento espiritual, e lembrarmos que a prática espiritual é o único meio de descobrirmos a essência da nossa existência humana.Além disso, deveríamos compreender que precisamos fazer bom uso dessa oportunidade preciosa, pois não temos noção de quando iremos morrer. Depois que estivermos mortos, a única coisa que contará será o nosso carma positivo ou negativo. O carma positivo vai nos levar à felicidade temporária e última, e o carma negativo a mais sofrimento. Esta compreensão deve estar assentada sobre uma sólida crença na infabilidade do carma, e não apenas em uma noção abstrata.Se nossa mente seguir padrões cármicos negativos, seremos impelidos em direção a condições de renascimento onde haverá apenas sofrimento — contemplá-los, trazê-los à mente, vez após vez, e por fim, meditar sobre eles, constitui a melhor forma de cultivarmos diligência inabalável.


Por vezes, emoções como raiva, desejo ou paixão aparecem em nossa mente com tanta força que parecem ter vida própria, podendo nos obcecar. Que fazer?


Quer experimentemos apego ou aversão, o objeto da nossa emoção — a pessoa ou coisa pela qual sentimos raiva ou desejo — não é permanente, individualizado ou autônomo. Todos os objetos das nossas emoções são impermanentes, compostos de muitas partes diferentes, sujeitos a influências externas, desprovidos de autonomia ou poder próprio. Uma vez que tenhamos entendido isso, precisamos contemplar esse fato vez após vez. Não basta reconhecer que isso seja verdade, e então deixar de lado esse dado. Precisamos pensar sobre ele repetidas vezes, para que, gradualmente, cheguemos à compreensão de que os objetos do nosso apego ou aversão, na realidade, não existem, mas são como imagens em um sonho. Este é o principal antídoto para as emoções fortes.Uma outra abordagem implica em usarmos uma emoção, como a raiva, como antídoto de si mesma: a forma da raiva é empregada com habilidade, para domar o aspecto ordinário e confuso da raiva. Por exemplo, em certas práticas vajrayana iradas, podemos utilizar imagens em que os inimigos são mortos. No entanto, isso não implica em uma agressão externa, pois reconhecemos que o inimigo, que sentimos existir fora de nós, não é o que está impedindo de alcançar a liberação: o obstáculo real é a nossa raiva em relação ao inimigo. Então, nós focamos nossa mente não em derrotar o inimigo externo, mas em liberar o inimigo interno, o verdadeiro inimigo: nosso próprio ódio e raiva, que, quando nos levam a agir, acabam por criar carma negativo. Nessas práticas, liberamos esse inimigo interno no contexto das quatro qualidades incomensuráveis do amor, compaixão, alegria e equanimidade, e, da perspectiva da sabedoria, através da compreenção de que nem o "eu" nem os fenômenos possuem uma natureza intrínseca real.Podemos usar uma abordagem semelhante com o desejo. Por exemplo, a atração sexual abranje o objeto do desejo de uma pessoa, ela própria que deseja, e a atividade sexual ou as interações entre a pessoa e o objeto de sua atração. Dentro do vajrayana estas são as chamadas "três esferas" do sujeito, objeto e atividade entre eles. Do ponto de vista de sua natureza essencial, nunca será possível estabelecer que o objeto do desejo, ou a pessoa que é o sujeito que deseja, ou qualquer atividade baseada naquele desejo, possuem existência própria e verdadeira. Não obstante, a energia dinâmica que é inerente à vacuidade manifesta-se de forma incessante. Temos aqui a consciência primordial exibindo-se através dos fenômenos que se manifestam.Dessa forma, podemos praticar uma atividade baseada no desejo de uma perspectiva mais elevada. Se nós o compreendermos do ponto de vista de sua natureza essencial, e não em termos daquilo que acontece quando sentimos e agimos impulsionados por ele, podemos experimentar o prazer ordinário da atividade sexual de forma não-dualista, como sendo a união da felicidade extasiante e da vacuidade. Assim, usamos a forma do desejo como habilidade para domar o desejo comum e confuso. Entretanto, sem essa visão de sua natureza essencial, nossa atividade vai estar baseada no desejo comum e iremos acumular carma. Mesmo que tenhamos optado por seguir por esse caminho, e façamos uso de tal meditação, não iremos imediatamente transformar nossas percepções, pois estamos lidando com padrões habituais muito potentes. Entretanto, através de uma prática consistente e estável, nossas negatividades gradativamente diminuirão, e tudo aquilo que é positivo e contribui para a iluminação crescerá. Independentemente de quais meios específicos estejamos empregando, o importante é aplicá-los vez após vez, sem desanimarmos, recordando que o processo leva tempo.


Há uma menina na nossa Sanga cujo gatinho quebrou a perna. Ela fez orações a Tara, pedindo ajuda, mas o animal terminou morrendo. Em outro caso, uma jovem saudável fez práticas meditativas com Vajrasattva por um ano, e sentia-se protegida pela divindade, mas um câncer declarou-se e ela passou a ter uma visão negativa do Darma.


Para dar uma explicação que a menina entenda, podemos usar o exemplo de um excelente mecânico. Se você tem um carro que não está funcionando bem, quão realista é esperar que um mecânico muito habilidoso possa consertá-lo? Na maioria dos casos, podemos esperar que o mecânico consiga isso. Porém, por mais habilidoso que ele seja, se o carro estiver muito desgastado, não haverá conserto possível.O que acontece com um ser vivo, quer seja uma pessoa ou um gato, depende do carma, bem como das circunstâncias incidentais e imediatas da sua vida. Se tivermos o carma para sustentar este nosso corpo, vamos viver. Mas quando a força que sustenta a nossa existência se dissipa, não há quem consiga trazê-la de volta. Embora as orações da criança terem dado a impressão de não produzir resultado imediato, isso não significa que a prática feita em proveito do gatinho foi equivocada ou inútil; ela irá beneficiar aquele ser em uma vida futura.Uma pessoa pode, às vezes, mesmo nesta vida, superar obstáculos enormes através de sua prática, quando três fatores se juntam: fé, carma que permita que os obstáculos sejam superados, e as bênçãos e compaixão do objeto a que a pessoa dirige suas preces.


Qual é a origem dos mantras? Qual é a sua função?


A força e a eficácia dos mantras advém, em primeiro lugar, do fato de que os sons e formas das sílabas mântricas, em essência, não estão além da vacuidade ou do Darmakaia e, portanto, são estabelecidos pela verdadeira natureza da própria realidade. Em segundo lugar, a forma particular que os mantras assumem — a combinação de certas sílabas e seu som — surge por si só da compaixão inata dos Budas e Bodisatvas. Assim se estabelece sua força intrínseca dos fenômenos. Em terceiro lugar, os mantras foram usados por grandes praticantes que provaram seu valor, consagraram-nos e imbuíram-nos com suas próprias preces e aspirações. A isso chamamos o estabelecimento por meio das bênçãos. Por fim, se uma pessoa recita mantras repetidamente, com fé em sua eficácia, ela purificará seus obscurecimentos e carma, e adquirirá os siddhis tanto ordinários quanto sublimes, ou seja, as realizações espirituais. A isso chamamos o estabelecimento através da força e energia do mantra. Em nossa prática, tanto os mantras que usamos quanto as deidades associadas a eles, são dotados desses quatro tipos de estabelecimento.


Em última análise, qual é de fato, a natureza daquilo que chamamos "deidade"?


O termo deidade refere-se tanto a Darmakaia quanto a Rupakaias, ou seja, manifestações com forma. Quando dizemos "o Darmakaia do Buda", estamos nos referindo a um estado sem imperfeições, dotado de todas as qualidades positivas, no qual a natureza fundamental de todos os fenômenos encontra-se inteiramente evidente, livre de elaborações conceituais. A radiância do Darmakaia manifesta-se incessantemente como Rupakaias: como Sambogakaia, na percepção daqueles com carma purificado, e como Nirmanakaia para aqueles com carma comum, não-purificado.Atualmente, por estarmos temporariamente, superficialmente, sujeitos à confusão, vivenciamos a realidade de modo dualista, como esperança e medo, como "eu" e "outro", alto e baixo. Embora as máculas superficiais e distorções de nossa corrente mental não tenham sido purificadas, nossa natureza essencial é pura. A diferença entre a deidade e nós mesmos está em que ela corporifica uma pureza dupla — a da natureza essencial da mente e a devida à purificação dos obscurecimentos —, ao passo que nós somos, em essência, puros, mas ainda não puros no nível temporário, superficial. Por causa disso, vivenciamos a deidade como separada de nós. Uma vez que o hábito de perceber as coisas como distintas de nós tenha sido purificado e nossos obscurecimentos tenham assim sido removidos, iremos reconhecer que não há deidade alguma além das aparências auto-manifestadas da deidade e da terra pura, as quais estão adiante dos conceitos de separado ou idêntico.


Como são os praticantes ocidentais e como se dá sua relação com o Darma?


Muitos são inteligentes, capazes de avaliar aquilo que as diferentes tradições têm a oferecer e tomar boas decisões sobre o que é importante, com base nesse exame inteligente. Mas os estudantes ocidentais do Darma padecem de falta de informação, simplesmente porque os ensinamentos budistas não têm estado disponíveis no Ocidente por muito tempo. Além disso, quando novatos, os ocidentais às vêzes não são capazes de discernir se os ensinamentos de Darma estão sendo apresentados de uma maneira tendenciosa ou preconceituosa. Isto não acontece com frequência — a maioria dos lamas ensina de uma forma não-sectária e com bom coração — mas quando isso acontece e os alunos são inexperientes para reconhecer a distorção do Darma genuíno, isso pode representar um obstáculo sério. Fora isso, não vejo nenhum problema especial que seja característico deles. Os praticantes ocidentais têm facilidade para alterar comportamentos e hábitos externos, etc., mas também se dão conta de que uma transformação interna, através da prática, é mais importante.Num sentido mais amplo, estamos todos lidando com padrões habituais e carma negativo, que vêm sendo reforçado ao longo do tempo sem princípio. A maioria dos ocidentais tem ainda que lidar com o fato de que, durante a primeira parte de sua vida, não teve contato algum com os ensinamentos do Darma, e portanto, não teve oportunidade de se famializar com sua prática, muito menos de dedicar a ela o tempo necessário à transformação interior. Estão começando do zero.Seria ingênuo supor que praticantes novos conseguirão eliminar todas as suas deficiências e desenvolver todas as qualidades positivas da prática. Porém, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que estágio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, então o amor, compaixão e sabedoria crescerão. Se as pessoas praticam, elas conseguem melhorar. Aqui não há diferença entre ocidentais e orientais. Se, ao tomarmos nosso primeiro contato com o Darma, pensarmos que vamos ser perfeitos desde o início, e que se isso não acontecer não há razão para praticarmos, estaremos nos afastando do único meio que temos de nos tornarmos perfeitos, de nos tornarmos verdadeiros praticantes. Primeiro precisamos ser expostos aos ensinamentos para que, então, passo a passo, possamos nos tornar verdadeiras corporificações do Darma.Possam todos os seres ser beneficiados!


* Chagdud Tulku Rinpoche, um mestre de meditação altamente realizado, artista e médico tibetano, nasceu no Tibete Oriental em 1930 e morreu em 2002. Reconhecido na primeira infância como a reencarnação do abade do monastério de Chagdud Gompa, recebeu treinamento completo, junto com muitos dos melhores lamas do Tibete, na filosofia e prática de meditação do budismo vajrayana. Deixou seu país por ocasião da ocupação chinesa, em 1959, e por solicitação de S.S. Dudjom Rinpoche, auxiliou na administração do estabelecimento de vários campos de refugiados na Índia e no Nepal. Atendendo a pedidos de vários alunos americanos, Rinpoche transferiu-se para os Estados Unidos em 1979. Desde então, por intermédio da Fundação Chagdud Gompa, criou centros para a prática e estudo do budismo vajrayana por todos os Estados Unidos, Canadá, Europa e Brasil.As perguntas dirigidas a Chagdud Tulku Rinpoche no presente texto foram feitas por estudantes brasileiros, tendo o texto completo sido organizado pelo Dr. Manoel Vidal, do Centro Nyingma Odsal Ling, de São Paulo, fundado sob a responsabilidade do Rinpoche.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Nada além de pensamentos

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Quando a raiva surge naquilo que consideramos como sendo nossas mentes, nos tornamos negligentes até com os perigos que nos ameaçam. Nossos rostos enrubescem de raiva, pegamos nossas armas e poderíamos até matar muitas pessoas.Mas essa raiva é uma ilusão; não é jamais alguma grande força que chega atacando. Ela só garante uma coisa: nos mandar para o inferno. E ainda assim não é nada além de pensamento, insubstancial pensamento, apenas pensamento, e mesmo assim...Veja outro exemplo: o de alguém rico. Ele tem muito dinheiro, é feliz e sente muito prazer consigo, pensando: "Sou rico". Mas então toda sua propriedade é confiscada por algum oficial ou outra pessoa. Sua felicidade evapora e ele cai em depressão e angústia.Aquela alegria é a mente. Aquela tristeza é a mente. E aquela mente é pensamento.




domingo, 19 de julho de 2009

Mantras para atrair paz e proteção


(17-07-09) – “Está tudo parado”. “Não vou chegar a tempo”. “Que motorista folgado!”. Se estas afirmações estão entre suas preferidas enquanto dirige, que tal virar o disco e apostar em outras mais auspiciosas? Purificar os pensamentos, remover os obstáculos do caminho, ter proteção e mudar o próprio destino são alguns benefícios, de acordo com os hindus, que podem ser alcançados com a repetição diária de mantras, do sânscrito manas (mente) e trai (libertar-se de).No trânsito, onde se está sujeito a situações de risco e estresse, cantar mantras é especialmente benéfico. “Os mantras podem ser entoados para evitar acidentes, assaltos e reduzir emoções negativas, como raiva, ansiedade e medo”, afirma o professor indiano de yoga, mantras e sânscrito Tattwaratnananda Saraswaty.O som usado para a cura não é mais algo exclusivo do oriente. É de lá, entretanto, que remontam os primeiros registros de seu uso. Acredita-se, na Índia, que os antigos mestres iogues tinham os sentidos desenvolvidos a ponto de poder ouvir sons transcendentes aos ouvidos comuns. Eles eram capazes de escutar o silêncio além de todos os ruídos e ouvir a vibração sonora do universo além do silêncio. Vibrações“Quando combinamos a energia física do mantra, a vibração sonora, com a energia mental da intenção da atenção, aumentamos, fortalecemos e direcionamos o efeito energético do mantra. A intenção, razão de estarmos recitando o mantra, é transmitida pela vibração física, produzindo um efeito. Essa é a essência do mantra sanscrítico”, afirma Thomas Ashley Farrand, autor de Mantras que Curam (Editora Pensamento).Para compreender a ação dos mantras, Ferrand explica que a consciência humana existe simultaneamente em muitos níveis. “Cada órgão do corpo tem uma consciência primitiva própria que lhe permite desempenhar certas funções específicas. Cada órgão é também parte de um sistema. Os sistemas cardiovascular, reprodutivo, digestivo e nervoso, todos incluem órgãos funcionando em estágios um pouco diferentes de um mesmo processo. Níveis semelhantes de funcionamento e estados de consciência existem também no corpo sutil”.Assim, afirma Ferrand, “quando recitamos mantras, desencadeamos uma vibração poderosa que corresponde tanto a um nível específico de energia espiritual quanto a um estado de consciência em forma embrionária. Aos poucos, a vibração do mantra começa a superar todas as vibrações menores, que acabam sendo absorvidas pelo mantra”.


Adriana Bernardino


Retirado do portal Yahoo

sábado, 18 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Controle das Emoções

Agora, qualquer emoção pode surgir apenas como um minúsculo pensamento ou sentimento, que depois cresce cada vez mais forte. Se você puder reconhecer esse pensamento no exato instante em que ele surge, será fácil deixá-lo se acalmar de novo.Uma emoção reconhecida nesse estágio é como um pequeno emaranhado de nuvens em um céu limpo e vazio, que não vai produzir nenhuma chuva.Se, por outro lado, você permanecer inconsciente de tais pensamentos e deixá-los se expandir e multiplicar, rapidamente haverá uma sucessão de pensamentos e sentimentos, cada um aumentando o anterior, e você vai achar cada vez mais difícil não apenas interromper a construção dessa emoção como também de impedir as ações negativas que ela pode induzir.Como o "Ornamento dos Sutras Mahayana" alerta: "Emoções destroem a pessoa, os outros e acabam com a disciplina".

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 - Butão, 1991)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Aniversário de Dzongsar Khyentse - 18/junho


Um escultor pode criar uma linda mulher com mármore, mas ele deve saber bem como não se apaixonar pela criação. Como Pigmalião com sua estátua de Galatéia, nós também criamos nossos amigos e inimigos, mas nos esquecemos que é assim. Devido à ausência do estado desperto em nós, nossas criações são transformadas em algo sólido e real, e vamos ficando cada vez mais enroscados. Quando você compreender por inteiro, não apenas intelectualmente, que tudo é apenas sua criação, você será livre.

Dzongsar Khyentse Rinpoche, em " What Makes You Not a Buddhist"

Prece pela longevidade de Dzongsar Khyentse Rinpoche

OM SOTI DJAM IANG TCHEN PE NIENG DJED RAB SAL UAR KUN TCHAB TUG DJEI OD ZER TA IE BAR

OM SOTI Sol inteiramente luminoso da sabedoria de Manjusri, os raios de sua compaixão inata que tudo permeiam, brilham ilimitadamente,


MED DJUNG NU TOB TEN DROI PED MOI NIEN TCHOD GUI SANG SUM TAG TU TEN DJUR TCHID

sua magnífica energia e poder nutrindo os lótus dos ensinamentos e dos seres. Que seus três segredos sublimes permaneçam sempre firmes.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Véus da Mente II

O véu da ignorância

A ignorância sobre a verdadeira natureza da mente, isto é, o simples fato dela não reconhecer o que é realmente, é chamada de ignorância fundamental. É a inabilidade básica da mente condicionada perceber a si mesma. Podemos comparar a mente pura, que possui as três qualidades essenciais, com as águas calmas e transparentes, nas quais tudo pode ser visto claramente. O véu da ignorância é uma falta de inteligência, um tipo de estado nublado, assim como um vaso opaco faz a água perder sua claridade transparente. Tal mente obscurecida perde a experiência da abertura lúcida e se torna ignorante de sua natureza essencial.
Diz-se que a ignorância fundamental é inata, porque ela é inerente à nossa existência; nascemos com ela. De fato, ela é o ponto de partida da dualidade, a raiz de todas as delusões e a fonte de todo sofrimento.

O véu da tendência básica
A mente controlada pela ignorância se engaja em todas as delusões, entre as quais a mais básica, a raiz de todas as outras delusões, é o apego dualista em termos de sujeito e objeto.
Quando a mente não conhece a extensão de sua abertura, ao invés de experienciar sem centro ou periferia, percebemos tudo através de um ponto central de referência. Este ponto, o centro que se apropria de todas as experiências, é o observador, o ego-sujeito. É deste modo que a mente, ignorante de sua abertura, produz a experiência delusória de um "eu".
Ao mesmo tempo, quando a natureza da claridade não é reconhecida, experienciamos uma sensação de "outro" ao invés da qualidade auto-consciente da mente. Assim, o sujeito-ego distingue coisas que se tornam a qualidade auto-consciente. Assim o sujeito-ego distingue coisas que se tornam objetos externos. Surge a dicotomia do sujeito e do objeto, do "eu" e do outro. As "outras" coisas têm uma forma dual: as aparências do mundo externo e os fenômenos duais.
Esta tendência da mente ser ignorante de sua natureza, e de perceber todas as situações de modo dualista, é o véu da tendência básica. Desta perspectiva, este segundo véu pode ser chamado de véu do apego dualista.

O véu das paixões
Como vimos, a mente ignorante de sua abertura e de sua claridade fica imersa na dualidade. Então, a ignorância da sensitividade da mente dá surgimento a todos os relacionamentos que existem entre os dois pólos da dicotomia sujeito-objeto. No nível puro, a sensitividade é a imediação e a multiplicidade das qualidades iluminadas, mas na ignorância, estas qualidades são substituídas pelas infinitas possibilidades relacionais dualistas. Na ignorância, começamos tomando os objetos externos como sendo coisas reais. Então experienciamos atração aos objetos agradáveis, aversão aos objetos desagradáveis e indiferença aos objetos que parecem neutros. Se um objeto é agradável, queremos possuí-lo. Por outro lado, diante de objetos ou situações desagradáveis, temos uma atitude de rejeição ou fuga. Finalmente, não nos relacionamos com certos objetos ou situações por causa da indiferença ou estagnação mental.
Estes três tipos de relacionamentos - atração, aversão e indiferença - correspondem ao desejo, ao ódio e à ignorância. Estes são os três venenos mentais primários, as três principais aflições mentais que animam e condicionam a mente habitual.
Na base destes três tipos de relacionamento, outras numerosas aflições mentais ou emocionais se multiplicam, notavelmente o orgulho, a ganância e a inveja. O orgulho surge deste "eu" que nasce da ignorância; a ganância é uma extensão do apego desejoso; enquanto a inveja provém do ódio e da aversão. Assim, os três venenos primários se ramificam em seis paixões: ódio, ganância, ignorância, apego desejoso, inveja e orgulho. Elas correspondem aos seis estados de consciência característicos dos seis reinos da existência. Depois, eles são subdivididos de novo e de novo, totalizando 84 mil tipos diferentes de paixões! Todos estes relacionamentos dualistas e aflitos compõem o véu das paixões.

O véu do karma
As várias paixões conduzem a uma grande variedade das ações dualistas, que podem ser - em termos de karma - positivos, negativos ou neutros. Elas condicionam a mente e a fazem nascer em um dos seis reinos da existência condicionada. Isto é o que chamamos de véu da atividade condicionada, ou véu do karma.

sábado, 13 de junho de 2009

Os véus da mente I

Se não há uma diferença essencial entre a mente de um buddha e a nossa própria mente, por que um buddha tem tantas qualidades atribuídas a ele, e nós não? A diferença é que em nossas mentes a natureza de buddha está obscurecida por todos os tipos de cobertura.
No nível impuro - isso é, na ignorância - cada uma das três facetas da mente pura se torna um dos elementos que constituem a experiência dualista. Para começar, a ignorância sobre a abertura da mente conduz à uma concepção de um sujeito, de um "eu", de um observador; e a ignorância sobre a claridade essencial conduz à ignorância dos objetos exteriores. É assim que surge a dicotomia sujeito-objeto, eu-outro.
Uma vez que os dois pólos da visão dualista tenham sido estabelecidos, vários relacionamentos se desenvolvem entre eles, que por sua vez motivam diferentes atividades. Os estágios deste processo são constituídos de quatro véus que mascaram a mente pura, a natureza de buddha. Eles são: o véu da ignorância, o véu da tendência básica, o véu das aflições mentais e o véu do karma. Eles são consecutivos e estão estruturados um após o outro.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sinais da Vacuidade


Aquele que realiza a verdadeira natureza da mente compreende ao mesmo tempo em que todos os fenômenos, as coisas e os seres, os universos e todos aqueles que os povoam, são apenas uma produção da mente, vazia em sua essência.Um certo número de sinais nos indicam a vacuidade da mente e a ausência de entidade própria dos fenômenos, mas, geralmente, não prestamos atenção neles. No momento da concepção, quando a mente entra no ventre da mãe, os pais não podem vê-la. Nenhum efeito materialmente perceptível permite revelar sua vinda. No momento da morte, do mesmo modo, mesmo que o moribundo esteja rodeado de muitas pessoas, ninguém vê a mente sair do corpo. Ninguém poderia dizer: "Ela saiu por aqui", ou ainda: "Ela saiu por ali".Talvez vocês tenham estudado durante muitos anos e armazenado muitos conhecimentos. No entanto, eles não estão dentro de um armário, de uma casa ou do peito. Não estão em parte alguma, pois são desprovidos de existência em si mesmos. Eles estão armazenados na vacuidade.À noite, adormecidos, sonhamos e vemos um mundo inteiro, com paisagens, cidades, homens, animais, e todos os objetos dos sentidos, aos quais adicionamos um movimento emocional feito de desejo, de aversão, etc. Durante o próprio sonho, somos persuadidos da existência real de todos os fenômenos oníricos. Entretanto, uma vez acordados, eles desaparecem. Não existem em parte alguma fora da mente daquele que sonha. É o mesmo processo que se desenvolve durante o bardo do vir-a-ser. Formas, sons, odores, sabores, etc são percebidos como reais. As aparências manifestadas durante a vida que se completou não têm mais existência. Depois, quando a mente entra de novo em uma matriz, são então as aparências do bardo que se desfazem e não existem mais em parte alguma.
Kalu Rinpoche

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma breve meditação

Sentando confortavelmente, vamos deixar a mente descansar em seu estado natural. Relaxamos a nós mesmos, nossas tensões, e permanecemos sem tensão, sem qualquer intenção em particular, sem artifícios... Soltamos nossa mente e permitimos que ela fique aberta, como o espaço... Espaçosa, a mente permanece clara e lúcida... Relaxada, solta, a mente permanece transparente e luminosa... Não mantemos nossa mente encerrada em nós mesmos... Ela não está confinada em nossa cabeça, em nosso corpo, no ambiente ou em qualquer lugar. Relaxada, ela é vasta como o espaço que abarca tudo... Ela abarca tudo, todo o mundo e todo o universo. Ela permeia nosso mundo inteiro. Permanecemos descansados, relaxados, neste estado de abertura, ilimitado, totalmente lúcido e transparente.
A abertura e a transparência da mente, similares ao espaço infinito, são sinais do que temos chamado de abertura. Sua consciência livre e clara é o que temos chamado de claridade.
Há também a sua sensitividade, que é a capacidade da mente experienciar tudo em uma desimpedida consciência de pessoas, de lugares e de todas as outras coisas. A mente pode conhecer todas estas coisas e pode reconhecê-las distintamente.
Mais uma vez, sem orientar "a mente" - o sujeito-conhecedor - para fora nem para dentro, permanecemos como estivermos, à vontade e relaxados... Sem afundar num estado de indiferença ou estagnação mental, nossa mente permanece alerta e vigilante... Neste estado, a mente é aberta e desengajada. Isto é a abertura... Na consciência lúcida está a sua claridade... Todos os aspectos que conhece, distinta e desimpedidamente, são a sua sensitividade.
Um obstáculo importante surge como resultado de habitualmente confinarmos a mente ao corpo, que percebemos como sendo o nosso corpo; nos identificamos com este corpo, nos fixamos nele e nos encerramos nele. Para neutralizar isto, é importante relaxar toda tensão, toda inquietação. Tensa e inquieta, a mente fica presa. Estas tensões terminarão causando dores físicas e de cabeça.
Deixe a mente permanecer descansada em sua vastidão lúcida, aberta e relaxada.
Podemos começar a meditar deste modo, mas é fundamental continuar a prática sob a direção de um guia qualificado, que nos conduzirá no caminho correto. Com a ajuda dele ou dela, podemos realizar a vacuidade da mente, dos pensamentos e das emoções, o que é o melhor de todos os métodos de nos livrarmos da delusão e do sofrimento. Reconhecer a natureza das emoções negativas permite que elas sejam liberadas; é portanto essencial aprender a reconhecer sua vacuidade assim que elas surgirem. Se permanecermos ignorantes de sua natureza vazia, elas nos carregarão em sua torrente, nos escravizando e subjugando. Elas têm controle sobre nós porque atribuímos a elas uma realidade que, na verdade, elas não têm. Se realizarmos sua vacuidade, então o seu poder alienador e o sofrimento que elas causam irão desaparecer.
Esta habilidade de reconhecer a natureza aberta e vazia da mente e de todas as suas produções, projeções, pensamentos e emoções é a panacéia, o remédio universal que, em e por si mesmo, cura toda delusão, toda emoção negativa e todo sofrimento.
Nossa mente pode ser comparada a uma mão que está atada ou amarrada; neste caso, a mente está presa pela representação de nosso "eu", "ego" ou "self", assim como pelos conceitos e fixações que pertencem a esta idéia. Pouco a pouco, a prática do Dharma elimina estas fixações e conceitos de auto-estima e, assim como uma mão desatada pode se abrir, a mente se abre e ganha todos os tipos de possibilidades de atividade. Ela então descobre muitas qualidades e habilidades, como a mão livre de suas amarras. As qualidades que são lentamente reveladas são aquelas da iluminação, da mente pura.

Kalu Rinpoche

sábado, 2 de maio de 2009

Natureza vazia da mente



Se você atirar uma pedra no nariz de um porco, ele imediatamente irá se virar e correr. Da mesma maneira, sempre que um pensamento se desenvolver, reconheça-o como sendo vacuidade. Esse pensamento perderá instantaneamente seu poder de apelo e não irá gerar apego e ódio -- e, uma vez que apego e ódio se foram, a realização do Dharma perfeitamente puro irá se desdobrar naturalmente no interior.Na verdade, pode tentar: não há qualquer outra maneira de se livrar do seu apego e ódio enquanto continuar acreditando que eles surgem devido às circunstâncias e objetos externos aos quais estão ligados. Quanto mais tentar rejeitar os fenômenos externos, mais eles vão se lançar de volta contra você. Por isso a importância de reconhecer a natureza vazia de seus pensamentos, simplesmente permitindo que eles se dissolvam.Quando você sabe que é a mente que cria tanto samsara quanto nirvana, e também -- ao mesmo tempo -- que a natureza da mente é vacuidade, então a mente não mais será capaz de te iludir e te puxar pelo nariz.Uma vez que tenha reconhecido a natureza vazia da mente, permitir que surja o amor por alguém que te prejudica se torna fácil. Mas, sem esse reconhecimento, é muito difícil impedir o surgimento da raiva, não é? Olhe bem e você verá que é a mente que realiza ações positivas, é a mente que cria circunstâncias negativas.Como o Buda compreendeu inteiramente a natureza vazia da mente e permaneceu no samadhi do grande amor, o ataque que os Maras fizeram chover sobre ele se transformou numa chuva de flores. Se, no lugar disso, Buda tivesse permitido que o pensamento "Os Maras estão tentando me matar" o provocasse, se transformando em uma explosão de raiva, ele certamente teria ficado vulnerável a essas armas, e teria sofrido muito com os ferimentos provocados.